Aquilombar-se para Existir: Saúde Mental e Pertencimento

Uma das maiores violências do racismo é nos fazer acreditar que estamos sozinhos, nos afastar uns dos outros e produzir em nós uma sensação de isolamento. O isolamento produz vulnerabilidade, e isso não é segredo.

Outro fato é que pessoas negras experimentam o isolamento mesmo estando em espaços compartilhados. Descobrimos cedo que a solidão não se mede pela ausência de pessoas ao redor. Ela é subjetiva e aparece quando não nos sentimos vistos e quando passamos tanto tempo tentando sobreviver que nos esquecemos de que também merecemos pertencer.

A solidão se revela quando somos a única pessoa negra em uma sala, em um trabalho, no restaurante que escolhemos para comemorar uma data especial… Aparece também quando aprendemos que precisamos esconder nossas dores, endurecer nossos corpos e carregar o mundo nas costas. E, aos poucos, passamos a associar o ato de pedir ajuda ao fracasso.

Se isolamento e solidão são dispositivos tão eficientes para produzir adoecimento, nossa maior defesa está no movimento contrário. E é na nossa própria história que encontramos uma resposta: a ideia de quilombo.

Quando penso em quilombo, penso em gente fazendo a vida acontecer apesar de tudo. Pessoas que tiveram seus vínculos fragilizados ou rompidos pela violência da escravização e que, ainda assim, encontraram maneiras de reconstruir família, comunidade, afeto e futuro. Aquilombados, nossos ancestrais se recusaram a acreditar que sobreviver era suficiente e insistiram em viver.

Lembro de uma frase que me marcou em um dos momentos da minha vida em que minha saúde mental foi posta em xeque: “Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes. Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência é roubar um pouco de bom que vivi”. É um trecho da música AmarElo, que dá nome ao álbum do cantor Emicida. O álbum foi lançado em plena pandemia da COVID-19, quando o mundo todo teve a experiência de atribuir novos sentidos às palavras isolamento e solidão.

Encontrei uma questão profundamente humana que aproxima a ideia de quilombo e o trecho da música: viver é mais do que sobreviver e a nossa existência é uma produção coletiva de vida. Viver é um movimento social.

A lógica quilombola é muito diferente daquela do mundo ocidental e neoliberal que habitamos hoje. Enquanto os referenciais eurocêntricos nos ensinam a competir, acumular e nos bastar, o quilombo nos ensina que a vida só se sustenta no encontro e na partilha. Logo, diferente do que muitos pensam, não é apenas um lugar geográfico, uma porção de terra ou uma localização. Quilombo é um conceito afrocentrado para a existência coletiva e comunitária, um dispositivo de proteção e nutrição da vida.

Para nós, negros, que sentimos no cotidiano as feridas produzidas pelo racismo e colonialismo, aquilombar não é apenas um conceito político ou histórico, é estratégia vital. Justamente, por isso pensar em saúde mental da população negra passa, necessariamente, por uma reflexão sobre pertencimento, comunidade e aquilombamento. Ninguém deveria precisar “sobreviver sozinho” neste mundo.

Yibambe!

Mulher negra, mãe por adoção, lésbica e neurodivergente. Terapeuta ocupacional, mestre em Saúde Mental e fundadora do Kilomba, coletivo afrocentrado voltado ao fortalecimento, pertencimento e cuidado de mulheres negras por meio do aquilombamento esportivo, da cultura e da comunidade. Pesquisa e escreve sobre negritude, saúde mental, cultura periférica, ancestralidade e resistência, articulando produção acadêmica, território e experiências coletivas negras contemporâneas.

Publicar comentário